Entender o que se passa no dia-a-dia das pessoas já não pode mais ser descoberto a partir das categorias ou das abstrações que eram válidas até pouco tempo atrás. Como a etnografia, as pesquisas qualitativas, em geral, permitem um entendimento mais profundo sobre as interações humanas, sendo fortemente aplicada pelos especialistas em comunicação, bem como motivando e oferecendo subsídios ao discurso da mídia e da política econômica e liberal contemporânea.
São muitas as profissões hodiernas em que entender sobre a vida dos jovens a partir da forma como se comunicam é extremamente importante e cada vez mais essencial: marketeiros, políticos, analistas de sistemas, designers, publicitários, jornalistas, engenheiros, empresários, pesquisadores de tendências, arquitetos, psicólogos, antropólogos, empresários, etc. O que quero dizer é que as pessoas não vivem mais de forma simplista, pois as maneiras de pertencer ao mundo já não são mais fechadas como antigamente. E toda a lógica sócio-cultural está estruturada para fazer o mundo girar em torno das subjetividades humanas e de seu potencial comunicativo. Pode-se hoje muita coisa ao mesmo tempo e, principalmente, DIZ-SE SOBRE MUITAS COISAS HOJE. Em muito pouco tempo tivemos estas mudanças tão avassaladoras na forma como os homens se comunicam uns com os outros no seu mais completo sentido.
Um projeto extremamente pertinente aos paradoxos levantados nestas reflexões foi desenvolvido por Karl Fisch (professor da Arapahoe High School) - o “Did you know?”. Um de seus filmes foi encontrado pelo Gustavo, traduzido e legendado em português pelo pessoal do blog Doisespressos, disponível inclusive no youtube:
Trazendo a discussão para o plano prático da comunicação, acabei me lembrando de uma campanha publicitária do Estadão. A idéia desenvolvida com base no conhecimento dos profissionais da publicidade, comumente chamado de “posicionamento de comunicação”, trabalha justamente com uma mensagem que quer falar com as pessoas que possuem as características mencionadas acima. Com o slogan “Estadão. Conteúdo para todos vocês.”, a campanha que entrou no ar em 05/11/08, tem o seguinte mote: “O mundo atual exige que as pessoas sejam cada vez mais generalistas e multi-tarefas. Assumam variadas responsabilidades e papéis no dia-a-dia. Estar bem informado pode ser fundamental em cada um desses momentos.” (Fonte: Portal da propaganda)
Assista dois filmes para a TV desta campanha divulgados no propmktv.com.br:
- Filme para TV versão feminina
- Filme para TV versão masculina
Na mesma linha conceitual, uma campanha mais recente também segue a mesma ideia ao apresentar soluções de informação e conhecimento para os indivíduos que hoje mudam seus gostos e opiniões a cada dia:
Outro filme publicitário do Estadão, criou polêmica e ficou famoso por abordar os conteúdos dos blogs de uma forma que não agradou aos blogueiros, pois diziam implicitamente diziam que na internet existe muito conteúdo que parece bom, mas que no fundo é pura cópia (vide o conflito blogueiros X jornalistas vivenciado na Campus Party 2008):
A publicidade (não só ela) produz apropriações e resignificações de uma série de resultados analíticos (há estudo no que eles fazem), logo transformados em conceito, em propaganda e negócio! Veja o vídeo de introdução do site da agência Talent (que atende a conta do Estadão) e perceba um pouco do espírito do trabalho publicitário. É só clicar no letreiro de cinema escrito Talent (no lado esquerdo da tela) para abrir o vídeo.
Com o advento da TV e do rádio, por mais numerosas que sejam as críticas e as convicções acerca dos “maus” resultados que estas produções culturais produzem na humanidade (e eu as faço!), é inegável constatar que informação e conhecimento começaram a chegar nas pessoas comuns a pouquíssimo tempo, sob a forma de publicidade, de jornal televisivo, de programa de auditório ou de telenovela, sem falar na Internet, no celular, etc. Especificamente onde a educação formal e a política não chegavam, na vida da maioria, os meios de comunicação de massa se fizeram presentes – ainda mais se pararmos para pensar no período em que começamos a ter escolas na América Latina, em contraponto com a Europa.
Entramos na seara das políticas de ensino, que são formas institucionalizadas de aprendizado e de formação de conhecimento para que as pessoas (sobretudo os jovens e as crianças) enfrentem o mundo, ampliando e, muitas vezes impondo, determinados códigos de ética, de conduta, de certos e errados, para além, mas sempre permeando todas as estruturas na vida humana: a família, a religião, o trabalho social, os valores, etc. Fugindo, na grande maioria das vezes, das culturas que hoje temos que denominar de primitivas, o mundo que nossa civilização construiu e tornou possível não comporta mais os determinismos, fazendo com o homem construa individualmente saídas próprias e alternativas a estas formas de conhecimento que simplesmente impõem determinado gosto ou orientação de suas atitudes! Não é à toa que hoje, exista um choque entre o conhecimento “tradicional” (o dos livros, das escolas, das aulas, dos professores goela a baixo com palmatórias) e o “empírico” (o conhecimento adquirido de acordo com o vivido, a cultura “própria”, suas experiências, as formas e os jeitos de entender as coisas, contato com outras culturas, estrutura familiar, crenças, dores, etc.).

Com as novas tecnologias e aparatos tecnológicos, será que enfrentamos, então, uma verdadeira “revolução da comunicação”, que modificou profundamente as estruturas de conhecimento dos homens comuns e suas relações? Orientações de respostas a esta pergunta podem ser encontradas no livro de Dominique Wolton, “Internet, e depois?”.
Como uma provocação, vale um vídeo caseiro que ilustra a interação de uma criança de 1 (um) ano com um Iphone:
Cabe enfatizar que nem sempre foi assim, ou seja, o homem nem sempre foi o mesmo, uma vez que as experiências que os antigos viveram passam longe do que experimentamos hoje! Se retornarmos aos seus pensamentos, à forma como viviam, como se organizavam em sociedade, como era divido e difundido o poder e o edifício humano sobre a terra, veremos que, ah, sem dúvida era bem diferente! Toda a noção de tempo e de espaço era inquestionavelmente diferente e as conquistas humanas nos trouxeram a um admirável mundo novo!
Para o bem ou para o mal, nossa civilização nos trouxe a uma realidade onde é possível TER VOZ e OUVIR O PRÓXIMO de várias maneiras novas, onde o saber não está mais concentrado territorial e espacialmente!!! Podemos estar em vários lugares diferentes, falar a partir de distintos instrumentos com uma série de pessoas, trabalhando, nos informando, e construindo assim, um novo jeito de operar com as idéias, com os signos, as mensagens, o trabalho, as máquinas e as pessoas. A tecnologia e seu avanço (que só pode acontecer a partir dos avanços da ciência e da lógica mercantil), provam que hoje, para os homens, nos educamos, nos comunicamos, desenvolvemos nossos pensamentos e valores de forma muito mais envolvente e individual do que antigamente. E podemos mudar de opinião quando quisermos! PODEMOS mais!! Este é o ponto!! Extrapolamos as verdades absolutas e expressamos nossos sentimentos, nossos gostos, nossas preferências, nossas decepções conectados que somos às redes das telecomunicações.
Um dos problemas que considero centrais às minhas dúvidas de pesquisa está voltado para esta problemática – o que acontece com as pessoas diante das possibilidades comunicativas, sobretudo com os jovens, na sociedade de hoje? Será que seus desejos, suas vontades, seus medos não devam ser considerados de uma maneira mais próxima e até subjetiva para pensar a política, a economia, a educação, a cultura e a globalização, ao verificar como se comunicam com o mundo? Como eles reagem a partir destas novas formas de ser, de existir mesmo, que transformaram a experiência do vivido em experiência de comunicação e também de consumo da mesma?
A juventude permite entrar em contato com este espírito propriamente novo que está sendo fomentado, difundido e ampliado por todas as esferas que envolvem a comunicação humana: política, teórica, econômica, social, antropológica, filosófica, etc. O efeito Bill Gates e Steve Jobs, por exemplo, legitima um modelo ideal de expectativa e de orientação na vida dos jovens que rapidamente se difundiu. Isto fez os “nativos digitais” rápidos, idealistas, e conectados, além de “antenados”. Seus pontos de conexão com o mundo foram habilitados desde cedo e eles passeiam com destreza, inquietação e fome de saber e conhecer, uma vez inseridos neste novo cenário construído pelo “ecossistema comunicacional”.
A Campus Party, esta experiência esperada e desejada, permite visualizar questões centrais às ciências da comunicação e da cultura vinculadas ao conhecimento, às orientações político-privadas, às novas tecnologias, e à sociedade de consumo. Perceber isso tudo se tornará possível ao prestar atenção nas sutilezas do que acontecerá neste evento jovem, digital, formado de carne, osso e bits! Perceber o que eles sentem e o que os afetam, pode verdadeiramente colaborar para um entendimento orientado a ações políticas, culturais e comunicacionais voltadas aos jovens e ao “novo”, pensando em que tipo de educação será capaz de dar conta das necessidades inerentes aos novos seres humanos e tecnológicos que estão se desenvolvendo no cenário atual.
(Veja este post para saber mais detalhes sobre a Pesquisa na Campus Party)
Referência de textos sobre pesquisa da área de comunicação que trabalham a experiência juvenil na nova realidade comunicacional:
- Artigo escrito por João Freire Filho: “Novas perspectivas para o estudo da relação entre discursos midiáticos, juventude e poder” (texto publicado na Revista E-Compós, Vol. 6, 2006 – “Estudos Culturais”)
- Artigo escrito por Inácio Szabó; Rubens Ribeiro e Gonçalves da Silva: “A construção do conhecimento nas comunidades virtuais do ciberespaço” (texto publicado na Revista E-Compós, Vol. 7, 2006 – “Economia política da comunicação”)
- Artigo escrito por Rose de Melo Rocha; Josimey Costa da Silva: “Consumo, cenários comunicacionais e subjetividades juvenis” (texto publicado na Revista E-Compós, Vol. 9, 2007 – “Cibercultura”)
- Trabalho desenvolvido por Beatriz Bretas (UFMG). Apresentado no GT Comunicação e Sociabilidade na XVII Compós: São Paulo/SP: “Pessoas comuns no ciberespaço: dimensões éticas e estéticas da ocupação midiática”

- Artigo escrito por Rose de Melo Rocha: “Da geração “X” à geração “crtl alt del” (este texto faz parte do livro organizado pela pesquisadora Lúcia Leão (PUC-SP): “O chip e o caleidoscópio”)

- Livro organizado por João Freire Filho e Silvia H.S. Borelli: “Culturas juvenis no século XXI”