Com esse post pretendo fechar o assunto hacker, iniciado com o Manifesto em meu último post, afim de tecer um pano de fundo que ajudará muitos a compreenderem um pouco mais sobre esse universo de contra cultura e suas influências na cultura digital de hoje em dia. Minha intenção com essa abordagem é mostrar que existem, ainda hoje, sentimentos em relação a informação, computadores e tecnologia que me parecem muito próximos do “espírito da coisa” defendido pelos hackers originais, algo próximo do entusiasmo, dos ideais de liberdade de pensamento e do desejo de entender mais e de ir além tão presente nessas pessoas, fatores que considero estarem entre os mais importantes para a formação desse espírito de inovação e de evolução.
Peço desculpas antecipadas aos compatriotas tupiniquins defensores do nobre idioma de Camões, por citar referências sem tradução e fazer tantos links para artigos em inglês, mas tal material dificilmente chegam até aqui, além de existir poucas referências claras sobre o assunto em português. Antes de qualquer coisa, para deixar claro, vamos à definição clássica de hacker (não confundir com “black hat hacker“, “cracker“, “phreaker” ou “phisher“). Apesar de não haver uma única forma de sintetizar, as definições mais aceitas para o significado original da palavra hacker variam entre “entusiástico e habilidoso programador ou usuário de computadores” e “pessoa que aprecia ter um entendimento íntimo dos funcionamentos internos de um sistema (em particular computadores e suas redes)“.
Ao longo do tempo, devido em grande parte à ignorância da mídia mainstream, o termo passou a ser utilizado errôneamente para se referir a pessoas que cometem algum tipo de crime eletrônico, fazendo com que o uso comum tomasse um significado próximo a “pessoa que usa computadores para ter acesso não autorizado a dados” (percebam que essa última definição é apenas uma das formas de se colocar as duas originais em prática). Ao longo do tempo qualquer tipo de pessoa que comete algum tipo de crime eletrônico passou a ser chamada de hacker e o termo virou algo pejorativo. Uma pena.
Para exemplificar de forma mais prática, cito aqui três dicas de filmografia hacker básica, que ajudarão muitos a entenderem esse tal “espírito da coisa”, ao cobrir certos aspectos dessa história e esclarecer muitos pontos, porém sem serem técnicas demais ao fazê-lo. Listo estas três dicas em uma ordem proposital e cronológica em relação à sua data de produção, e sugiro que esta seja mantida para um bom entendimento dos fatos.

John Draper (Captain Crunch) e amigos em seu habitat natural
A primeira dica é o documentário inglês “The Secret History of Hacking”, que conta a história dos primeiros hackers e phreakers na década de 70. Das brincadeiras com telefones até o uso “heterodoxo” da Internet, esse documentário mostra o início da era da informática sob uma ótica muito peculiar (certamente não a da mídia mainstream). Conta com a participação de John Draper, Steve Wozniak e Kevin Mitnick, três dos maiores hackers/phreakers de todos os tempos, profundamente envolvidos com a revolução causada no mundo pela tecnologia aplicada à comunicação e o uso de computadores como conhecemos hoje.
O documentário foi feito pela produtora inglesa September Films, para a rede Channel 4 (canal aberto da TV inglesa), que em seu site oficial explica um pouco mais sobre essa excelente produção. É possível assistir “The Secret History Of Hacking“ aqui no blog (no caso, é o vídeo logo abaixo), direto no Google Video, e em mais inúmeras páginas por aí. Se quiser obtê-lo em uma resolução melhor, pode recorrer a métodos heterodoxos de download que não vou descrever aqui (mesmo acreditando que não há nada de errado em disponibilizar gratuitamente algo que passou na TV aberta).
A segunda dica é “Pirates of Silicon Valley“. Essa produção da TNT é um filme/documentário feito exclusivamente para televisão que mostra o início da era do PC, tendo como trama principal a história do surgimento das gigantes Apple e Microsoft, bem como a rivalidade entre as duas empresas e seus respectivos fundadores. O filme/documentário foi baseado no livro “Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer“, escrito por Paul Freiberger e Michael Swaine, que conta o surgimento da indústria do PC no Vale do Silício e a participação dos jovens responsáveis por isso.
A preocupação do diretor Martyn Burke com a veracidade dos fatos foi tão grande que ele passou sete meses junto a uma equipe de pesquisadores de Harvard em um projeto de pesquisa com o objetivo de descobrir todos os dados possíveis sobre o surgimento e a história das duas empresas, bem como checar os fatos citados no livro. Até mesmo Steve Wozniak (que aparece retratado como um dos narradores do filme) elogiou a produção e comentou sobre a exatidão dos fatos relatados nas cenas.
Sugiro que aluguem o DVD (sim, este está disponível nas locadoras) ou comprem um para si mesmos se quiserem guardar esse pedaço da história para mostrar aos netos (isso é, se eles chegarem a conhecer um DVD player). Eu sei que eu vou.
Abaixo, reproduzo o início do filme diretamente do YouTube pois não quero gerar intriga com direitos autorais e propriedade intelectual. Quem quiser recorrer a métodos heterodoxos outras formas obscuras de download que não vou descrever aqui, que faça-o por sua própria conta e risco.
A terceira e última dica é o documentário “Revolution OS”, dirigido por J.T.S. Moore, que retrata a história do Movimento do Software Livre, do Open Source e dos sistemas operacionais GNU e Linux. O documentário narra os últimos 30 anos de história do PC através da ótica do Movimento do Software Livre, do Open Source e das pessoas neles envolvidas, através de uma série de entrevistas com hackers e ativistas como Michael Tiemann, Linus Torvalds, Eric S. Raymond e Bruce Perens, entre outros, contando a história desses hackers que se rebelaram contra a Microsoft e os gigantes da indútria, e dos movimentos e sistemas operacionais que acabaram criando nesse processo. O documentário foi exibido na primeira edição da Campus Party no Brasil em 2008 como referência para a comunidade Open Source por retratar e definir tão bem o movimento, muito disso graças ao fato de que, nas palavras do diretor, “todas as pessoas que aparecem no filme falam de suas histórias pessoais, construindo um mosaico para a compreensão do movimento de sistemas operacionais abertos”.
Uma das mais importantes aparições no filme é a de Richard Stallman (outro grande hacker, programador e ativista), fundador da Free Software Foundation e responsável pelo surgimento do Movimento do Software Livre ao ter lançado o sistema operacional GNU. Stallman é simplesmente o responsável por escrever o GNU General Public License, licensa de software livre mais utilizada no mundo até hoje.
Imperdível, esta terceira dica de hoje vem para fechar o tema mostrando um pouco desse pedaço da nossa história mas dessa vez não pelos olhos da mídia, nem dos gigantes da indústria, e sim pela ótica daqueles envolvidos nos movimentos de contra cultura que iam contra ambas as lógicas. Reproduzo abaixo o trailer seguido da primeira parte do filme, ambos diretamente do YouTube para não causar problemas. E pra finalizar, quem quiser recorrer a métodos heterodoxos outras formas obscuras maneiras alternativas de download que não vou descrever aqui, que faça-o por sua própria conta e risco. E que fique registrado que eu não falei pra ninguém baixar nada…
Vejo que hoje em dia há no comportamento de muitas pessoas, aquilo que era defendido ou tido como natural pelos hackers de décadas passadas. As noções de propriedade intelectual e direitos autorais ficam cada vez mais enevoadas, e o pirata atual pode ser qualquer um, eu, você, e também o seu vizinho…
Não defendo uma postura xiita de ativismo hacker, pois acredito que algum tipo de ordem é necessária e nem todos são ordeiros no ramo. Mas também não defendo a manutenção da lógica corporativa, só acho que há um meio-termo mais justo, satisfatório e adequado para todos.
