Ser Digital, acabou se tornando o nome do Projeto Etnográfico que envolve as três pessoas aqui reunidas, e que tem neste blog um retrato dos resultados de suas pesquisas pré Campus Party. Este espaço online, com fins públicos, serve como ferramenta para trocarmos impressões, questões e referências entre a Equipe e entre qualquer possível interessado. O blog tem um formato apropriado para que o pesquisador possa narrar seus encontros, como faremos com nosso Diário de Campo nos dias em que estaremos imersos.
Este texto, tem a intenção de apresentar um pouco sobre o TRABALHO ETNOGRÁFICO do ponto de vista do pesquisador – aquele que aplicará um método de abordagem científica proveniente do campo da antropologia e apropriado pela sociologia, pela comunicação e por outros campos do conhecimento e até do mercado (em 2008, a Intel levou o etnógrafo Rogério de Paula para pesquisar tendências na área de games). Chamo este trabalho de Ofício, porque ele implica em treino, desenvolvimento de capacidades, reflexão constante e visão crítica sobre as interações entre os homens. Isto se torna ainda mais relevante por estarmos lidando com um método essencialmente qualitativo, sem pretensão de resultados gerais, e que, por estes motivos, demanda um árduo trabalho de reconhecimento de si, uma vez que é a partir do OLHAR do pesquisador que o trabalho é desenhado. Neste caso, é preciso se dedicar verdadeiramente à pesquisa como ofício, pois ao pretender enxergar além das aparências para entender a complexidade das práticas culturais e sociais sob a perspectiva humana da coisa, ele deve assumir posturas críticas para afinar suas percepções e não enxergar a partir de lentes míopes.
Para entender tal importância em falar da figura de quem pesquisa e de seus pontos de vista, é preciso esclarecer que a Etnografia é utilizada para interpretar relações humanas de Interconhecimento e de Interação (mais dados sobre Etnografia na primeira versão do projeto postado neste blog). Um exemplo tirado do livro “Ofício de Cartógrafo”, conta uma experiência vivida por Martín-Barbero ao ver um filme intitulado “A lei da selva” no Cine México, em Cali, localizado num bairro popular do velho centro da cidade. Uma peculiaridade: este melodrama mexicano ficou seis meses em cartaz num lugar em que um filme de sucesso permanecia por poucas semanas. Aconteceu que o autor e seus amigos professores não contiveram suas gargalhadas, enquanto a platéia comovida assistia a tudo num silêncio imbuído por fortes emoções. Irritados com a atitude do “intelecto” grupo, vários homens chegaram até eles e falaram: “Ou se calam ou os tiramos daqui!”. Concluindo, eles estavam diante de uma cultura verdadeiramente outra, o que fez o próprio autor entender que “o filme que eles [os mexicanos] viam não tinha nada a ver com aquele que eu [Martín-Barbero] estava vendo”. (“Ofício de Cartógrafo”; pg. 30-32)
Sempre duvidando do que soa como natural e comum, “a etnografia, graças à imersão do pesquisador no meio pesquisado, reconstitui as visões da base mais variadas do que se imagina; permite o cruzamento de diversos pontos de vista sobre o objeto, torna mais clara a complexidade das práticas e revela sua densidade.” (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 10-11)
Assim sendo, a etnografia pressupõe esforço, reflexão e modéstia, uma vez que não existe pesquisa sem análise crítica, muito menos sem motivos ou sem inquietações sedentas de conhecimento e, principalmente, sem pessoas. Por tudo isso partir e se referir a esfera do pesquisador, ele pode e deve exprimir suas opiniões, até porque elas marcam, materializam e esclarecem as percepções, as ideologias e mesmo o pensamento e o olhar sobre si mesmo. É como se você emprestasse corpo e mente para um fim maior, fazendo de você mesmo o fio condutor que liga o campo aos resultados de pesquisa, pois a etnografia é uma ferramenta de combate científico e político.
“Como aconselha Wright Mills [98], “você tem que, portanto, aprender a usar, em proveito de seu trabalho intelectual, a experiência adquirida ao longo da vida; precisa, sem parar, perscrutá-la e interpretá-la. Nesse sentido, o ofício é o centro de você mesmo e você mesmo entra por completo na menor de suas criações intelectuais. Você “tem uma experiência”, isto é, seu passado ressurge no presente, influenciando-o e circunscreve os limites da experiência por vir.” (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 30)
Por todos estes motivos, a pesquisa etnográfica não permite “observar práticas ou registrar opiniões fora de CONTEXTUALIZAÇÃO”. (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 31) O pesquisador deve se posicionar, deve estar em constante contato com ele mesmo, para que assim, ele consiga ir além do superficial, não contaminando o trabalho intelectual com postulados ou certeza. Ele deve tornar tudo estranho e, ao tentar entender o outro, deve entender, antes de mais nada a ele mesmo. Afinal de contas, como diz Martín-Barbero citando Gramsci: “só investigamos de verdade o que nos afeta, e afetar vem de afeto.” (“Ofício de Cartógrafo”; pg. 25)
Referências Bibliográficas utilizadas neste post:
- BEAUD, Stéphane; WEBER, Florence. Guia para a pesquisa de campo: produzir e analisar dados etnográficos. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
- MARTÍN-BARBERO, Jesús. Ofício de cartógrafo – Travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

Links:
- Jesús Martín-Barbero propone nuevas formas de investigar la comunicación y la cultura