Para fechar o ano em grande estilo, nesse terceiro e último post de 2008 resolvi trazer um dos textos mais clássicos da cultura hacker. “A Consciência de um Hacker” (também conhecido como “O Manifesto Hacker”) é um pequeno ensaio escrito em 8 de janeiro de 1986 por um Loyd Blankenship, um hacker conhecido pelo pseudônimo “The Mentor”. O texto foi escrito logo após sua prisão, e foi publicado pela primeira vez no zine underground “Phrack” (escrito por e para hackers, cujo nome deriva de “phreak” + “hack”). Hoje ele ainda pode ser encontrado em muitos sites, bem como em camisetas e filmes.
É considerado um marco na cultura hacker, e dá um certo insight sobre a psique dos primeiros hackers.Visto como um dos fatores responsáveis por ter moldado a visão dessa comunidade a respeito de si mesma e de suas motivações, o texto expressa o engrandecimento de um hacker realizando seu potencial no mundo dos computadores, e declara que os hackers escolhem fazer o que fazem pois para eles é uma forma de aprender, e porque eles se vêem frequentemente frustados pelas limitações da sociedade padrão.
Até hoje, o Manifesto age como um guia de referência para hackers ao redor do globo, especialmente para aqueles novos na arte. Ele serve de fundamento ético para as práticas do hacker, e é assertivo ao dizer que há uma motivação para tais práticas que vai além de desejos egoístas de explorar ou prejudicar os outros, e que a tecnologia deveria ser usada para expandir nossos horizontes e tentar manter o mundo livre.
Na minha humilde opinião, esse texto mudou a cabeça de muita gente, e é exatamente isso que espero postando essa pérola no blog. Venho humildemente tentar abrir a cabeça dos leitores para uma abordagem sem preconceitos e um pouco mais “clássica” de um termo errôneamente empregado por muitos na mídia, que insistem em associá-lo ao crime eletrônico. Abaixo, segue uma versão traduzida por mim do original em inglês pois afinal de contas, estamos em terras tupiniquins lusófonas (e não encontrei nenhuma tradução melhor).
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==Phrack Inc.==
Volume Um, Exemplar 7, Arquivo 3 de 10
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O seguinte foi escrito brevemente após minha prisão…
\/\ A Consciência de um Hacker /\/
por
+++The Mentor+++
Escrito em 8 de Janeiro de 1986
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Mais um foi pego hoje, está espalhado nos jornais. “Adolescente Preso em Escândalo de Crime Eletrônico”, “Hacker Preso Após Invadir Banco”…
Malditas crianças. São todos iguais.
Mas será que você, na sua psique de quem usa ternos de três peças e com a mentalidade de tecnologia da década de 50, alguma vez olhou através dos olhos de um hacker? Alguma vez imaginou o que faz ele funcionar, que forças o esculpiram, o que pode tê-lo moldado?
Eu sou um hacker, entre no meu mundo…
O meu é um mundo que começa com a escola… Eu sou mais inteligente que a maioria dos outros garotos, essa porcaria que eles ensinam me entedia…
Maldito vagabundo. Eles são todos iguais.
Estou no ginásio ou no colegial. Escutei os professores explicando pela décima quinta vez como reduzir uma fração. Eu entendo. “Não, Sra. Smith, eu não mostrei o processo. Eu fiz na minha cabeça…”
Maldito garoto. Provavelmente copiou. Eles são todos iguais.
Eu fiz uma descoberta hoje. Eu achei um computador. Espere um segundo, isso é legal. Ele faz o que eu quero que faça. Se ele erra, é porque eu fiz alguma besteira. Não porque ele não gosta de mim…
Ou se sente ameaçado por mim…
Ou acha que eu sou algum espertinho…
Ou não gosta de ensinar e não deveria estar aqui…
Maldito garoto. Tudo que ele faz é jogar jogos. Eles são todos iguais.
E então aconteceu… uma porta se abriu para um mundo… correndo pela linha telefônica como heroína pelas veias de um viciado, um pulso eletrônico é enviado, um refúgio das incompetências do dia-a-dia é buscado… uma rede é encontrada.
“É isso… é aqui que eu pertenço…”
Eu conheço todos aqui… mesmo que eu nunca os tenha conhecido, nunca tenha falado com eles, possa nunca mais ouvir falar deles… eu conheço todos vocês…
Maldito garoto. Prendendo a linha telefônica de novo. Eles são todos iguais…
Pode apostar que somos todos iguais… fomos alimentados a colheradas com comida de bebê na escola, quando estávamos famintos por um bife… os pedaços de carne que vocês deixavam passar estavam pré-mastigados e sem gosto. Fomos dominados por sádicos, ou ignorados pelos apáticos. O poucos que tinham algo a nos ensinar nos achavam pupilos com vontade, mas esses poucos são como gotas de água no deserto.
Esse é o nosso mundo agora… o mundo do elétron e do switch, a beleza do pulso. Nós fazemos uso de um serviço já existente sem pagar por aquilo que poderia ser extremamente barato se não fosse comandado por glutões que visam o lucro excessivo, e vocês nos chamam de criminosos. Nós exploramos… e vocês nos chamam de criminosos. Nós procuramos conhecimento… e vocês nos chamam de criminosos. Nós existimos sem cor de pele, sem nacionalidade, sem diferenças religiosas… e vocês nos chamam de criminosos. Vocês constroem bombas atômicas, incitam guerras, vocês assassinam, trapaceiam e mentem para nós, tentando nos fazer acreditar que é para o nosso próprio bem, no entanto nós somos os criminosos.
Sim, eu sou um criminoso. Meu crime é o da curiosidade. Meu crime é julgar as pessoas pelo que elas dizem e pensam, não pelo que elas se parecem. Meu crime é o de ser mais esperto que você, algo pelo qual você nunca irá me perdoar.
Eu sou um hacker, e esse é meu manifesto. Vocês podem parar esse indivíduo, mas não podem parar a nós todos… afinal, nós somos todos iguais…
+++The Mentor+++
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