Não estou aqui para ofender ninguém, nem para ser um radical extremista em minhas opiniões, mas faz dias que tento achar uma forma de escrever esse post sem incomodar ninguém e, honestamente, desisti disso ao perceber que seria impossível e resolvi escrever assim mesmo.
Um fato que muito me irrita em um blog é quando ele só tem uma página e nem dá rolagem vertical no navegador. Não porque gosto de ler blogs recheados de informação (de fato, acho melhor assim), mas porque muito me entristece ao ver o quanto as novas ferramentas de comunicação dão voz a quem não tem nada para dizer. Vejam bem, eu mesmo tenho amigos que têm mais de um blog assim, mas nem por isso eles me irritam. O que me irrita é a falta de controle e auto-crítica que surge com essa efervescência das novas formas de comunicação, mas afinal, não é da pluralidade que tiramos as coisas boas? Então, por enquanto, deixe estar…
Hoje vejo que existem inúmeras formas de se fazer um blog, microblog, sketchblog, flog, vlog, e tantas outras formas de deixar um “log” (registro, em inglês). Mas quantos desses logs têm, de fato, alguma informação útil para qualquer outra pessoa que não aquela que escreveu? Fico triste ao ver que a maioria das iniciativas desenvolvidas com a finalidade de propagar informação tenham se tornado ferramentas egoístas de auto-promoção ou introspecção, muito mais que qualquer outra coisa. Digo isso pois “sou assim”, “gosto disso” e “estou fazendo isso”, soam para mim como coisas muito mais egocêntricas do que “entenda mais do mundo em que você vive” ou “isso é algo que pode afetar muitas pessoas”.
De acordo com o site Technorati, há 133 milhões de blogs na “blogosfera“, número que cresce vertiginosamente (atualmente 1.5 milhão de novos blogs são criados toda semana, e cerca de 1 milhão de posts são feitos a cada 24 horas). Eu me pergunto quantos desses têm alguma informação útil para os leitores, e não me refiro a útil no sentido prático ou com finalidade específica, mas útil de qualquer forma, desde uma receita de bolo até um ensaio sobre geopolítica, qualquer coisa que acrescente algo na vida da pessoa, algo mais que informações sobre o humor, gosto ou pseudo-consciência de quem escreveu.
Devido à pesquisa, ando esbarrando com muitos blogs ultimamente, e isso tem me dado a chance de perceber quantos deles me fizeram perder tempo, ao mesmo tempo que poucos me economizaram muito deste, e evitaram que eu tivesse que gastar horas de pesquisa, porque alguém já se deu ao trabalho. Isso sim eu chamo de conhecimento colaborativo. Não importa o que o autor tinha na cabeça quando postou, ele sabia que aquilo iria acrescentar algo na vida de algum leitor, que alguém poderia fazer uso de alguma forma, e mesmo não sabendo exatamente como, postou e criou conteúdo útil para alguém na humanidade, passou conhecimento que poderá cair como uma luva na pesquisa de outro, ou simplesmente fez alguém sorrir.
Às vezes me dou ao trabalho de ler o caderno de informática da semana. Na verdade faço isso de vez em quando só pra saber o que andam falando sobre tecnologia no jornal, porque se eu quiser notícias atuais (e não semanais) sobre tecnologia, procuro na Internet. Dando uma olhada no caderno de informática do vizinho (é ele quem me fornece a versão em papel das notícias, que é usada para forrar o “banheiro” do cachorro), achei um exemplo de um blog que me chamou a atenção, e me deu esperança por assim dizer.
Sameh Akram Habeeb, 23 anos, é um blogueiro palestino residente em Gaza, um lugar aonde jornalistas não têm acesso. Ele percorre as ruas da cidade, fotografando os resultados dos recentes conflitos na região e disponibiliza o material na Internet a partir de sua casa (aonde ainda há telefone) depois de carregar a bateria de seu notebook em um local a quatro quilômetros dali (aonde ainda há eletricidade). Em seu blog “Gaza Strip, the Untold Story“, Sameh fala dos acontecimentos no lado palestino da Faixa de Gaza, enquanto em seu álbum virtual de fotografias coloca as fotos que faz pela cidade. Sua iniciativa já lhe rendeu ameaças de morte, mas ele diz que não vai parar pois sente que precisa mandar notícias sobre essa guerra.
O que pretendo com isso é dizer que acredito na capacidade que um ser humano tem de produzir algum conteúdo, dadas as corretas condições de produção. Por outro lado, também acredito que essas condições de produção devam incluir um certo grau de instrução em relação às formas de se comunicar, assim como aprendemos a nos comportar em uma comunicação verbal. Abriram-se para o mundo as portas de inúmeras ferramentas de comunicação, mas ninguém disse o que fazer com elas. Concordo que não se deve restringir o uso de uma ferramenta para atingir interesses específicos, mas daí para “faça o que quiser com isso” ou “isso é seu” é um longo caminho, e a anarquia digital instaurada por displicência tem se mostrado um tanto quanto barulhenta até aqui. Cuidado com o que você ouve no meio do barulho…
Vamos a ele: de forma prática, trata-se de um plugin que quando instalado no seu browser, permite os usuários descubram e dêem notas para páginas, fotos, vídeos, artigos recentes ou qualquer conteúdo disbonibilizado na internet. Essas páginas são apresentadas quando o usuário – conhecido dentro da comunidade como um “stumbler” – clica no botão “Stumble!” na barra de ferramentas do seu navegador.
Ao instalar o plugin, é preciso criar uma conta na qual seleciona-se os temas de interesse, e pronto, é só clicar em um botão fixo na barra de ferramentas do seu navegador e uma página inédita de conteúdo relevante é carregada na sua frente baseado nos seus interesses.
Bom até aí nada de novo, certo?
Apenas mais uma ferramenta que fica me mostrando sites bacanas?
Na verdade, aquilo que mais salta ao olhos é a mecânica de funcionamento da ferramenta que se alimenta do próprio uso e utiliza-se do conjunto de opiniões dos usuários, para trazer um conteúdo mais relevante para quem aperta o botão.
Isso acontece porque na medida em que os usuários navegam nas páginas eles podem classificá-las sob dois critérios de análise subjetiva o “I liked”: ou o “I didn`t like it”: . E há uma recompensa muita bacana para quem faz isso: na próxima vez em que o stumbler clica para descobrir um novo conteúdo, este aparece já considerando o conjunto de opiniões colaborativas sobre a qualidade dos sites. Segundo o site oficial da ferramenta, isso ocorre porque o usuário recebe a recomendação de páginas que os amigos e outros “stumblers que tem gostos e opiniões parecidas” também gostaram.
Portanto, o benefício principal oferecido pela ferramenta – descobrir sites cada vez mais relevantes na web – é socializado por meio da criação da rede social do seu entorno, e, sua mecânica de utilização por estar intimamente ligada com a avaliação subjetiva que o usuário faz das páginas, construiu a relevância individual e, após cruzamento das opiniões de vários usuários, a coletiva.
Isso faz com a que a ferramenta fique muito melhor após cada avaliação do usuário, ou seja, quando mais se usa, melhor fica, criando um ciclo virtuoso, uma “bola de neve do bem”.
Um outra mania web recente utliza o mesmo princípio colaborativo de retroalimentação, é o akinator o WebGenius.
Trata-se de um jogo que se propõe em que um gênio virtual adivinha o personagem ou celebridade que o usuário imaginar, fazendo apenas algumas perguntas genéricas sobre essa figura pública. Surpreendentemente, na maioria dos casos o gênio realmente “adivinha”.
Ele chega acertar até nomes de brasileiros não tão carimbados como por exemplo o comediante Tiririca ou até mesmo o jogador de futebol Júnior Baiano (faça o teste por lá!). Esse grau de profundidade só é possível porque toda essa
genialidade não sai da lâmpada, na verdade ela vem do coletivo e é baseada na mesma mecânica retroalimentar que movimenta o Stumble.
Esse modus operanti da web é a forma como o individual encontra o coletivo, e vice-versa.
Há exatos 28 dias iniciamos oficialmente a nossa pesquisa etnográfica sobre a Campus Party, realizada em EQUIPE (Alexandre, Thálita e Gustavo, na foto acima). Por conta do pouco tempo que tivemos para nos preparar, do dia 05 de janeiro até aqui, temos nos reunido praticamente todos os dias, realizando encontros intensivos aos finais de semana (das 10h à 01h do dia seguinte – mais ou menos). Tomara que não enjoemos um do outro, pois a convivência foi mais do que intensa!
Por estarmos aplicando um método essencialmente qualitativo, prezando pela compreensão de cada interação em si, sem pretensões universalizantes (não que por isso não podemos fazer uso de ferramental quantitativo), o que houve de mais rico neste processo foram estas acaloradas e intensas reuniões entre os membros da Equipe. Viajamos por vários assuntos, sempre confrontando e colocando na mesa nossas impressões e opiniões – que, é bom deixar claro, não são as mesmas! Cada um dos três envolvidos com o Ser Digital desde o início possui olhares diferentes sobre as coisas do mundo. Acreditamos fortemente que estes distintos pontos de vista se complementam, culminando em discussões que abarcam sempre vários lados de uma mesma moeda. Os preconceitos, deste modo, são discutidos obrigatoriamente, uma vez que as opiniões diversas nos forçam a entender o outro antes de sairmos dizendo que isso acontece por que acontece, e ponto. Nos obrigamos a colocar nossas crenças, nossas verdades e nossas “teorias” ou hipóteses em crise, uma vez que pensar criticamente sobre qualquer assunto, implica neste complexo, gratificante e às vezes doloroso exercício de reconhecimento de si mesmo.
Chegamos a discutir, a nos desculpar uns com os outros, a reorientar a condução da pesquisa em Equipe – enfim, nos alinhamos e conquistamos uma harmonia reflexiva pautada na diferença, criando, assim, um coletivo que preserva a peculiaridade e a heterogeneidade constitutiva destas pessoas. Expusemo-nos! Contamos nossos medos, nosso traumas, nossas alegrias e, principalmente, nos esforçamos para fazer com que o outro entendesse o caminho percorrido que nos trouxe ao mesmo lugar – a Campus Party. Exemplificando: se eu não gosto de blogs, se eu acho que na área de software livre e desenvolvimento só tem nerd estereotipado, se eu penso que jogos online é coisa pra quem não tem o que fazer ou se eu acho que a internet é o meio de comunicação mais fantástico do mundo – tudo isso tem que ter um MOTIVO; este motivo só faz parte de mim com base nas minhas experiências e nos coletivos pelos quais eu me filio, e se eu não entendê-lo, ficarei preso nas armadilhas dos meus gostos e das minhas preferências de forma inconsciente.
Por fim, deixo claro que este foi nosso maior investimento – entender o que existe em nós mesmos e que nos faz enxergar a Campus Party desta ou daquela forma. Usamo-nos para que pudéssemos entender mais e melhor as coisas naturalizadas, cristalizadas e cotidianas – que geralmente não paramos para pensar. Nossos posts individuais foram sempre discutidos em grupo e cada tema foi escrito pelo integrante que tinha mais intimidade e afinidade com o assunto em questão. O blog serviu para que colocássemos para fora algumas questões que mais nos interessam e nos afetam relacionadas a Campus Party!
Aproveito para saudar e dar as boas-vindas para duas alunas que participarão conosco da etnografia em campo: Gabriela Valentin Thobias e Luara Andrade Arabi – alunas do curso de Design e orientandas do prof. Wilson Bekesas no PIC-ESPM (Programa de Iniciação Científica). Nos vemos segunda-feira e contem conosco!
Entender o que se passa no dia-a-dia das pessoas já não pode mais ser descoberto a partir das categorias ou das abstrações que eram válidas até pouco tempo atrás. Como a etnografia, as pesquisas qualitativas, em geral, permitem um entendimento mais profundo sobre as interações humanas, sendo fortemente aplicada pelos especialistas em comunicação, bem como motivando e oferecendo subsídios ao discurso da mídia e da política econômica e liberal contemporânea.
São muitas as profissões hodiernas em que entender sobre a vida dos jovens a partir da forma como se comunicam é extremamente importante e cada vez mais essencial: marketeiros, políticos, analistas de sistemas, designers, publicitários, jornalistas, engenheiros, empresários, pesquisadores de tendências, arquitetos, psicólogos, antropólogos, empresários, etc. O que quero dizer é que as pessoas não vivem mais de forma simplista, pois as maneiras de pertencer ao mundo já não são mais fechadas como antigamente. E toda a lógica sócio-cultural está estruturada para fazer o mundo girar em torno das subjetividades humanas e de seu potencial comunicativo. Pode-se hoje muita coisa ao mesmo tempo e, principalmente, DIZ-SE SOBRE MUITAS COISAS HOJE. Em muito pouco tempo tivemos estas mudanças tão avassaladoras na forma como os homens se comunicam uns com os outros no seu mais completo sentido.
Um projeto extremamente pertinente aos paradoxos levantados nestas reflexões foi desenvolvido por Karl Fisch (professor da Arapahoe High School) - o “Did you know?”. Um de seus filmes foi encontrado pelo Gustavo, traduzido e legendado em português pelo pessoal do blog Doisespressos, disponível inclusive no youtube:
Trazendo a discussão para o plano prático da comunicação, acabei me lembrando de uma campanha publicitária do Estadão. A idéia desenvolvida com base no conhecimento dos profissionais da publicidade, comumente chamado de “posicionamento de comunicação”, trabalha justamente com uma mensagem que quer falar com as pessoas que possuem as características mencionadas acima. Com o slogan “Estadão. Conteúdo para todos vocês.”, a campanha que entrou no ar em 05/11/08, tem o seguinte mote: “O mundo atual exige que as pessoas sejam cada vez mais generalistas e multi-tarefas. Assumam variadas responsabilidades e papéis no dia-a-dia. Estar bem informado pode ser fundamental em cada um desses momentos.” (Fonte: Portal da propaganda)
Assista dois filmes para a TV desta campanha divulgados no propmktv.com.br:
Na mesma linha conceitual, uma campanha mais recente também segue a mesma ideia ao apresentar soluções de informação e conhecimento para os indivíduos que hoje mudam seus gostos e opiniões a cada dia:
Outro filme publicitário do Estadão, criou polêmica e ficou famoso por abordar os conteúdos dos blogs de uma forma que não agradou aos blogueiros, pois diziam implicitamente diziam que na internet existe muito conteúdo que parece bom, mas que no fundo é pura cópia (vide o conflito blogueiros X jornalistas vivenciado na Campus Party 2008):
A publicidade (não só ela) produz apropriações e resignificações de uma série de resultados analíticos (há estudo no que eles fazem), logo transformados em conceito, em propaganda e negócio! Veja o vídeo de introdução do site da agência Talent (que atende a conta do Estadão) e perceba um pouco do espírito do trabalho publicitário. É só clicar no letreiro de cinema escrito Talent (no lado esquerdo da tela) para abrir o vídeo.
Com o advento da TV e do rádio, por mais numerosas que sejam as críticas e as convicções acerca dos “maus” resultados que estas produções culturais produzem na humanidade (e eu as faço!), é inegável constatar que informação e conhecimento começaram a chegar nas pessoas comuns a pouquíssimo tempo, sob a forma de publicidade, de jornal televisivo, de programa de auditório ou de telenovela, sem falar na Internet, no celular, etc. Especificamente onde a educação formal e a política não chegavam, na vida da maioria, os meios de comunicação de massa se fizeram presentes – ainda mais se pararmos para pensar no período em que começamos a ter escolas na América Latina, em contraponto com a Europa.
Entramos na seara das políticas de ensino, que são formas institucionalizadas de aprendizado e de formação de conhecimento para que as pessoas (sobretudo os jovens e as crianças) enfrentem o mundo, ampliando e, muitas vezes impondo, determinados códigos de ética, de conduta, de certos e errados, para além, mas sempre permeando todas as estruturas na vida humana: a família, a religião, o trabalho social, os valores, etc. Fugindo, na grande maioria das vezes, das culturas que hoje temos que denominar de primitivas, o mundo que nossa civilização construiu e tornou possível não comporta mais os determinismos, fazendo com o homem construa individualmente saídas próprias e alternativas a estas formas de conhecimento que simplesmente impõem determinado gosto ou orientação de suas atitudes! Não é à toa que hoje, exista um choque entre o conhecimento “tradicional” (o dos livros, das escolas, das aulas, dos professores goela a baixo com palmatórias) e o “empírico” (o conhecimento adquirido de acordo com o vivido, a cultura “própria”, suas experiências, as formas e os jeitos de entender as coisas, contato com outras culturas, estrutura familiar, crenças, dores, etc.).
Com as novas tecnologias e aparatos tecnológicos, será que enfrentamos, então, uma verdadeira “revolução da comunicação”, que modificou profundamente as estruturas de conhecimento dos homens comuns e suas relações? Orientações de respostas a esta pergunta podem ser encontradas no livro de Dominique Wolton, “Internet, e depois?”.
Como uma provocação, vale um vídeo caseiro que ilustra a interação de uma criança de 1 (um) ano com um Iphone:
Cabe enfatizar que nem sempre foi assim, ou seja, o homem nem sempre foi o mesmo, uma vez que as experiências que os antigos viveram passam longe do que experimentamos hoje! Se retornarmos aos seus pensamentos, à forma como viviam, como se organizavam em sociedade, como era divido e difundido o poder e o edifício humano sobre a terra, veremos que, ah, sem dúvida era bem diferente! Toda a noção de tempo e de espaço era inquestionavelmente diferente e as conquistas humanas nos trouxeram a um admirável mundo novo!
Para o bem ou para o mal, nossa civilização nos trouxe a uma realidade onde é possível TER VOZ e OUVIR O PRÓXIMO de várias maneiras novas, onde o saber não está mais concentrado territorial e espacialmente!!! Podemos estar em vários lugares diferentes, falar a partir de distintos instrumentos com uma série de pessoas, trabalhando, nos informando, e construindo assim, um novo jeito de operar com as idéias, com os signos, as mensagens, o trabalho, as máquinas e as pessoas. A tecnologia e seu avanço (que só pode acontecer a partir dos avanços da ciência e da lógica mercantil), provam que hoje, para os homens, nos educamos, nos comunicamos, desenvolvemos nossos pensamentos e valores de forma muito mais envolvente e individual do que antigamente. E podemos mudar de opinião quando quisermos! PODEMOS mais!! Este é o ponto!! Extrapolamos as verdades absolutas e expressamos nossos sentimentos, nossos gostos, nossas preferências, nossas decepções conectados que somos às redes das telecomunicações.
Um dos problemas que considero centrais às minhas dúvidas de pesquisa está voltado para esta problemática – o que acontece com as pessoas diante das possibilidades comunicativas, sobretudo com os jovens, na sociedade de hoje? Será que seus desejos, suas vontades, seus medos não devam ser considerados de uma maneira mais próxima e até subjetiva para pensar a política, a economia, a educação, a cultura e a globalização, ao verificar como se comunicam com o mundo? Como eles reagem a partir destas novas formas de ser, de existir mesmo, que transformaram a experiência do vivido em experiência de comunicação e também de consumo da mesma?
A juventude permite entrar em contato com este espírito propriamente novo que está sendo fomentado, difundido e ampliado por todas as esferas que envolvem a comunicação humana: política, teórica, econômica, social, antropológica, filosófica, etc. O efeito Bill Gates e Steve Jobs, por exemplo, legitima um modeloideal de expectativa e de orientação na vida dos jovens que rapidamente se difundiu. Isto fez os “nativos digitais” rápidos, idealistas, e conectados, além de “antenados”. Seus pontos de conexão com o mundo foram habilitados desde cedo e eles passeiam com destreza, inquietação e fome de saber e conhecer, uma vez inseridos neste novo cenário construído pelo “ecossistema comunicacional”.
A Campus Party, esta experiência esperada e desejada, permite visualizar questões centrais às ciências da comunicação e da cultura vinculadas ao conhecimento, às orientações político-privadas, às novas tecnologias, e à sociedade de consumo. Perceber isso tudo se tornará possível ao prestar atenção nas sutilezas do que acontecerá neste evento jovem, digital, formado de carne, osso e bits! Perceber o que eles sentem e o que os afetam, pode verdadeiramente colaborar para um entendimento orientado a ações políticas, culturais e comunicacionais voltadas aos jovens e ao “novo”, pensando em que tipo de educação será capaz de dar conta das necessidades inerentes aos novos seres humanos e tecnológicos que estão se desenvolvendo no cenário atual.
- Artigo escrito por Rose de Melo Rocha: “Da geração “X” à geração “crtl alt del” (este texto faz parte do livro organizado pela pesquisadora Lúcia Leão (PUC-SP): “O chip e o caleidoscópio”)
Com esse post pretendo fechar o assunto hacker, iniciado com o Manifesto em meu último post, afim de tecer um pano de fundo que ajudará muitos a compreenderem um pouco mais sobre esse universo de contra cultura e suas influências na cultura digital de hoje em dia. Minha intenção com essa abordagem é mostrar que existem, ainda hoje, sentimentos em relação a informação, computadores e tecnologia que me parecem muito próximos do “espírito da coisa” defendido pelos hackers originais, algo próximo do entusiasmo, dos ideais de liberdade de pensamento e do desejo de entender mais e de ir além tão presente nessas pessoas, fatores que considero estarem entre os mais importantes para a formação desse espírito de inovação e de evolução.
Peço desculpas antecipadas aos compatriotas tupiniquins defensores do nobre idioma de Camões, por citar referências sem tradução e fazer tantos links para artigos em inglês, mas tal material dificilmente chegam até aqui, além de existir poucas referências claras sobre o assunto em português. Antes de qualquer coisa, para deixar claro, vamos à definição clássica de hacker (não confundir com “black hat hacker“, “cracker“, “phreaker” ou “phisher“). Apesar de não haver uma única forma de sintetizar, as definições mais aceitas para o significado original da palavra hacker variam entre “entusiástico e habilidoso programador ou usuário de computadores” e “pessoa que aprecia ter um entendimento íntimo dos funcionamentos internos de um sistema (em particular computadores e suas redes)“.
Ao longo do tempo, devido em grande parte à ignorância da mídia mainstream, o termo passou a ser utilizado errôneamente para se referir a pessoas que cometem algum tipo de crime eletrônico, fazendo com que o uso comum tomasse um significado próximo a “pessoa que usa computadores para ter acesso não autorizado a dados” (percebam que essa última definição é apenas uma das formas de se colocar as duas originais em prática). Ao longo do tempo qualquer tipo de pessoa que comete algum tipo de crime eletrônico passou a ser chamada de hacker e o termo virou algo pejorativo. Uma pena.
Para exemplificar de forma mais prática, cito aqui três dicas de filmografia hacker básica, que ajudarão muitos a entenderem esse tal “espírito da coisa”, ao cobrir certos aspectos dessa história e esclarecer muitos pontos, porém sem serem técnicas demais ao fazê-lo. Listo estas três dicas em uma ordem proposital e cronológica em relação à sua data de produção, e sugiro que esta seja mantida para um bom entendimento dos fatos.
John Draper (Captain Crunch) e amigos em seu habitat natural
A primeira dica é o documentário inglês “The Secret History of Hacking”, que conta a história dos primeiros hackerse phreakers na década de 70. Das brincadeiras com telefones até o uso “heterodoxo” da Internet, esse documentário mostra o início da era da informática sob uma ótica muito peculiar (certamente não a da mídia mainstream). Conta com a participação de John Draper, Steve Wozniak e Kevin Mitnick, três dos maiores hackers/phreakers de todos os tempos, profundamente envolvidos com a revolução causada no mundo pela tecnologia aplicada à comunicação e o uso de computadores como conhecemos hoje.
O documentário foi feito pela produtora inglesa September Films, para a rede Channel 4 (canal aberto da TV inglesa), que em seu site oficial explica um pouco mais sobre essa excelente produção. É possível assistir “The Secret History Of Hacking“ aqui no blog (no caso, é o vídeo logo abaixo), direto no Google Video, e em mais inúmeras páginas por aí. Se quiser obtê-lo em uma resolução melhor, pode recorrer a métodos heterodoxos de download que não vou descrever aqui (mesmo acreditando que não há nada de errado em disponibilizar gratuitamente algo que passou na TV aberta).
A segunda dica é “Pirates of Silicon Valley“. Essa produção da TNT é um filme/documentário feito exclusivamente para televisão que mostra o início da era do PC, tendo como trama principal a história do surgimento das gigantes Apple e Microsoft, bem como a rivalidade entre as duas empresas e seus respectivos fundadores. O filme/documentário foi baseado no livro “Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer“, escrito por Paul Freiberger e Michael Swaine, que conta o surgimento da indústria do PC no Vale do Silício e a participação dos jovens responsáveis por isso.
Cartaz original do filme
A preocupação do diretor Martyn Burke com a veracidade dos fatos foi tão grande que ele passou sete meses junto a uma equipe de pesquisadores de Harvard em um projeto de pesquisa com o objetivo de descobrir todos os dados possíveis sobre o surgimento e a história das duas empresas, bem como checar os fatos citados no livro. Até mesmo Steve Wozniak (que aparece retratado como um dos narradores do filme) elogiou a produção e comentou sobre a exatidão dos fatos relatados nas cenas.
Sugiro que aluguem o DVD (sim, este está disponível nas locadoras) ou comprem um para si mesmos se quiserem guardar esse pedaço da história para mostrar aos netos (isso é, se eles chegarem a conhecer um DVD player). Eu sei que eu vou.
Abaixo, reproduzo o início do filme diretamente do YouTube pois não quero gerar intriga com direitos autorais e propriedade intelectual. Quem quiser recorrer a métodos heterodoxosoutras formas obscuras de download que não vou descrever aqui, que faça-o por sua própria conta e risco.
A terceira e última dica é o documentário “Revolution OS”, dirigido por J.T.S. Moore, que retrata a história do Movimento do Software Livre, do Open Source e dos sistemas operacionais GNU e Linux. O documentário narra os últimos 30 anos de história do PC através da ótica do Movimento do Software Livre, do Open Source e das pessoas neles envolvidas, através de uma série de entrevistas com hackers e ativistas como Michael Tiemann, Linus Torvalds, Eric S. Raymond e Bruce Perens, entre outros, contando a história desses hackers que se rebelaram contra a Microsoft e os gigantes da indútria, e dos movimentos e sistemas operacionais que acabaram criando nesse processo. O documentário foi exibido na primeira edição da Campus Party no Brasil em 2008 como referência para a comunidade Open Source por retratar e definir tão bem o movimento, muito disso graças ao fato de que, nas palavras do diretor, “todas as pessoas que aparecem no filme falam de suas histórias pessoais, construindo um mosaico para a compreensão do movimento de sistemas operacionais abertos”.
Uma das mais importantes aparições no filme é a de Richard Stallman (outro grande hacker, programador e ativista), fundador da Free Software Foundation e responsável pelo surgimento do Movimento do Software Livre ao ter lançado o sistema operacional GNU. Stallman é simplesmente o responsável por escrever o GNU General Public License, licensa de software livre mais utilizada no mundo até hoje.
Imperdível, esta terceira dica de hoje vem para fechar o tema mostrando um pouco desse pedaço da nossa história mas dessa vez não pelos olhos da mídia, nem dos gigantes da indústria, e sim pela ótica daqueles envolvidos nos movimentos de contra cultura que iam contra ambas as lógicas. Reproduzo abaixo o trailer seguido da primeira parte do filme, ambos diretamente do YouTube para não causar problemas. E pra finalizar, quem quiser recorrer a métodos heterodoxosoutras formas obscurasmaneiras alternativas de download que não vou descrever aqui, que faça-o por sua própria conta e risco. E que fique registrado que eu não falei pra ninguém baixar nada…
Vejo que hoje em dia há no comportamento de muitas pessoas, aquilo que era defendido ou tido como natural pelos hackers de décadas passadas. As noções de propriedade intelectual e direitos autorais ficam cada vez mais enevoadas, e o pirata atual pode ser qualquer um, eu, você, e também o seu vizinho…
Não defendo uma postura xiita de ativismo hacker, pois acredito que algum tipo de ordem é necessária e nem todos são ordeiros no ramo. Mas também não defendo a manutenção da lógica corporativa, só acho que há um meio-termo mais justo, satisfatório e adequado para todos.
Com a adoção e o aumento do uso de redes sociais e outras novas ferramentas disponíveis para a interação na internet – como orkut, facebook e twitter - cada vez mais as marcas querem falar com as pessoas que ali estão. Desta forma, saber se inserir e se relacionar com o seu público-alvo em ambientes não tradicionais como esses, é um fator chave para comunicação eficaz de qualquer empresa que se aventura em comunicar-se via internet, e conferem novas implicações a este trabalho, uma vez que é necessário olhar estes novos fenômenos com novos olhos.
É impressionante como algumas agências de comunicação entendem o funcionamento e se apropriam da dinâmica das redes sociais para criar ações inovadoras, ousadas e, principalmente, conseguem aprová-las com os seus clientes.
Um dos melhor casos é o da ação promocional do Burguer King, implementada nos EUA por via de um aplicativo para facebook que convida os usuários a se sacrificarem em prol de um sanduíche gratuito. A proposta da campanha SacrifícioWhopper , a “Amizade é forte, mas o Whopper é ainda mais” é a seguinte – para ganhar um cupom que dá direto a um Whopper, os usuários devem apagar 10 amigos da sua rede de contatos do facebook.
Existe um potencial de mutiplicação da mensagem na medida em que, o usuário que é deletado no Facebook recebe uma notificação via o próprio aplicativo, algo que não aconteceria fora do aplicativo do BK, o tal do member get member - ou seria ‘member sacrifice member’ : P
Além disso, há pequenos detalhes de execução desta campanha que mostram um cuidado estratégico referente à ferramenta (facebook) e à adequação da ação ao contexto do usuário:
> A idéia tem uma força própria tão forte que naturalmente as pessoas estão falando espontaneamente dela, portanto ela transcende o facebook e a web e acaba sendo mencionada em outras esferas. É a questão de falar diretamente com um nicho específico do público-alvo (aqueles que que estão no facebook) e, por meio de press release, assessoria de imprensa e buzz, contar para muitas outras pessoas
> Dentro do nicho, os possíveis contatos que um usuário possui em uma rede com o Facebook incluem melhores amigos, amigos, colegas, conhecidos e outros… enfim, uma gama de contatos com diversos graus de profundidade de amizade, e a recompensa é o suficiente interessante a ponto de alguém querer`sacrificar` o contato de um mero conhecido ou mesmo brincar de sacrificar o seu melhor amigo. (tendo inclusive combinado previamente com ele ou não) sobre isso
> Existe a transparência que se exige de uma marca quando trata-se de internet, e na rede social como o Facebook fica claro que o intuito não é enganar o internauta, isto é, do ponto de vista do usuário está claro que os amigos que forem “sacrificados” serão avisados, a home do app possui um texto que diz – “Cada amigo será avisado, então escolha sabiamente” ou do inglês “Each friend will be notified so choose wisely.”
> A ação de relacionamento na rede social tem um “call to action” que leva para a loja física, ou seja, ela começa na web e se resolve no mundo real dentro da loja experimentando o produto.
> No senso comum existem questões morais quando se fala da troca da amizade por um produto, ou seja, há uma polêmica inerente à ação que também vemos em conteúdos (não necessariamente publicitários) que fazem sucesso na internet . De qualquer forma, a polêmica foi muito bem dosada para colocar uma pimenta na discussão do valor das amizades online sem necessariamente receber críticas dos usuários em relação a isso que enxergam muito mais como uma brincadeira do que qualquer outra coisa.
> o conjunto de licenças padronizadas para gestão aberta, livre e compartilhada de conteúdos e informação
> organização sem fins lucrativos que criou e divulga essas licenças que são alternativas à tradicional lei do direito autoral (copyright)
Esta licença foi concebida em 2001 a partir de um projeto lançado pela ONG Creative Commons, encabeçado pelo acadêmico Lawrence Lessig, professor da Universidade de Stanford – ele é autor de obras fundamentais relacionadas ao tema como “The Future of Ideas” , “Code and Other Laws of Cyberspace” e “Free Culture”.
Veja um vídeo da oficial do Creative Commons que ilustra um pouco das questões referentes do uso dessa licença e suas implicações:
Detalhe importante: este vídeo é licenciado em Creative Commons!
Livro de Lawrence Lessig | Free Culture
Mas para quem quer entender em profundidade as idéias por de trás da criação do CC precisa ler o livro Free Culture – do próprio Lessig.
Pessoalmente eu considero este livro um dos mais elucidativos no que diz respeito a falência do conceito de direito autoral da forma como conhecemos hoje (copyright), e é inevitável sentir um supreendente sentimento de frustração em relação a como a tradicional lei do direito autoral limita de forma absurda a criatividade nos dias de hoje, e consequentemente, não trabalha a favor da cultura. Afinal, a criatividade sempre se desenvolveu com base em repertórios correntes criados por outras pessoas.
E hoje existe um modelo com o qual tornou-se possível compartilhar com os outros as suas idéias sem perder os direitos sobre ela, sendo o Creative Commons a alternativa talvez mais emblemática para isso.
A forma como o livro Free Culre é disponibilizado é um exemplo do sucesso desta filosofia: você pode baixá-lo gratuitamente em PDF ou mesmo comprá-lo em uma livraria, assim como o fiz.
Em artigo publicado no jornal O Globo no dia 28 de setembro de 2007, com o título Solução Criativa (que foi transcrito aqui ), Ronaldo Lemos, diretor do Creative Commons no Brasil, comenta um pouco sobre a crise de legitimidade sofrida pelas associações de controle e defesa de direitos autorais no Brasil: UBC (União Brasileira dos Compositores) e Ecad.
“Ao verificar o estatuto do Ecad, por exemplo, nota-se que o poder de voto dentro da instituição é dado de acordo com o volume de recursos arrecadados por suas sociedades-membro no ano imediatamente anterior. Ou seja, quem arrecada mais dinheiro tem mais voto. É uma representatividade não de pessoas, mas de poder econômico (em vez de democracia, plutocracia). Isso praticamente inviabiliza o surgimento de novas associações de autores. Especialmente associações que reúnam a nova geração de músicos, por natureza arredios à ineficiência, à burocracia e à ausência de transparência.”
É importante deixar muito claro que quando qualquer um licencia a sua obra por meio do CC, este não está abdicando de forma alguma os direitos sobre ela, mas além da simples proteção, adota mecanismos com validade jurídica que promovem um consumo livre e coletivo da obra.
Aqui no Brasil, o então ministro da Cultura Gilberto Gil em 2004, inaugurou as licenças brasileiras CC ao publicar uma de suas músicas nessas condições, assista ao vídeo oficial do Creative Commons sobre este acontecimento:
Portanto o que faz essa licença é dar o direito ao autor de escolher o modo como a sua obra será compartilhada e consumida.
Ser Digital, acabou se tornando o nome do Projeto Etnográfico que envolve as três pessoas aqui reunidas, e que tem neste blog um retrato dos resultados de suas pesquisas pré Campus Party. Este espaço online, com fins públicos, serve como ferramenta para trocarmos impressões, questões e referências entre a Equipe e entre qualquer possível interessado. O blog tem um formato apropriado para que o pesquisador possa narrar seus encontros, como faremos com nosso Diário de Campo nos dias em que estaremos imersos.
Este texto, tem a intenção de apresentar um pouco sobre o TRABALHO ETNOGRÁFICO do ponto de vista do pesquisador – aquele que aplicará um método de abordagem científica proveniente do campo da antropologia e apropriado pela sociologia, pela comunicação e por outros campos do conhecimento e até do mercado (em 2008, a Intel levou o etnógrafo Rogério de Paula para pesquisar tendências na área de games). Chamo este trabalho de Ofício, porque ele implica em treino, desenvolvimento de capacidades, reflexão constante e visão crítica sobre as interações entre os homens. Isto se torna ainda mais relevante por estarmos lidando com um método essencialmente qualitativo, sem pretensão de resultados gerais, e que, por estes motivos, demanda um árduo trabalho de reconhecimento de si, uma vez que é a partir do OLHAR do pesquisador que o trabalho é desenhado. Neste caso, é preciso se dedicar verdadeiramente à pesquisa como ofício, pois ao pretender enxergar além das aparências para entender a complexidade das práticas culturais e sociais sob a perspectiva humana da coisa, ele deve assumir posturas críticas para afinar suas percepções e não enxergar a partir de lentes míopes.
Para entender tal importância em falar da figura de quem pesquisa e de seus pontos de vista, é preciso esclarecer que a Etnografia é utilizada para interpretar relações humanas de Interconhecimento e de Interação (mais dados sobre Etnografia na primeira versão do projeto postado neste blog). Um exemplo tirado do livro “Ofício de Cartógrafo”, conta uma experiência vivida por Martín-Barbero ao ver um filme intitulado “A lei da selva” no Cine México, em Cali, localizado num bairro popular do velho centro da cidade. Uma peculiaridade: este melodrama mexicano ficou seis meses em cartaz num lugar em que um filme de sucesso permanecia por poucas semanas. Aconteceu que o autor e seus amigos professores não contiveram suas gargalhadas, enquanto a platéia comovida assistia a tudo num silêncio imbuído por fortes emoções. Irritados com a atitude do “intelecto” grupo, vários homens chegaram até eles e falaram: “Ou se calam ou os tiramos daqui!”. Concluindo, eles estavam diante de uma cultura verdadeiramente outra, o que fez o próprio autor entender que “o filme que eles [os mexicanos] viam não tinha nada a ver com aquele que eu [Martín-Barbero] estava vendo”. (“Ofício de Cartógrafo”; pg. 30-32)
Sempre duvidando do que soa como natural e comum, “a etnografia, graças à imersão do pesquisador no meio pesquisado, reconstitui as visões da base mais variadas do que se imagina; permite o cruzamento de diversos pontos de vista sobre o objeto, torna mais clara a complexidade das práticas e revela sua densidade.” (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 10-11)
Assim sendo, a etnografia pressupõe esforço, reflexão e modéstia, uma vez que não existe pesquisa sem análise crítica, muito menos sem motivos ou sem inquietações sedentas de conhecimento e, principalmente, sem pessoas. Por tudo isso partir e se referir a esfera do pesquisador, ele pode e deve exprimir suas opiniões, até porque elas marcam, materializam e esclarecem as percepções, as ideologias e mesmo o pensamento e o olhar sobre si mesmo. É como se você emprestasse corpo e mente para um fim maior, fazendo de você mesmo o fio condutor que liga o campo aos resultados de pesquisa, pois a etnografia é uma ferramenta de combate científico e político.
“Como aconselha Wright Mills [98], “você tem que, portanto, aprender a usar, em proveito de seu trabalho intelectual, a experiência adquirida ao longo da vida; precisa, sem parar, perscrutá-la e interpretá-la. Nesse sentido, o ofício é o centro de você mesmo e você mesmo entra por completo na menor de suas criações intelectuais. Você “tem uma experiência”, isto é, seu passado ressurge no presente, influenciando-o e circunscreve os limites da experiência por vir.” (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 30)
Por todos estes motivos, a pesquisa etnográfica não permite “observar práticas ou registrar opiniões fora de CONTEXTUALIZAÇÃO”. (“Guia para a Pesquisa de Campo”; pg. 31) O pesquisador deve se posicionar, deve estar em constante contato com ele mesmo, para que assim, ele consiga ir além do superficial, não contaminando o trabalho intelectual com postulados ou certeza. Ele deve tornar tudo estranho e, ao tentar entender o outro, deve entender, antes de mais nada a ele mesmo. Afinal de contas, como diz Martín-Barbero citando Gramsci: “só investigamos de verdade o que nos afeta, e afetar vem de afeto.” (“Ofício de Cartógrafo”; pg. 25)
Referências Bibliográficas utilizadas neste post:
- BEAUD, Stéphane; WEBER, Florence. Guia para a pesquisa de campo: produzir e analisar dados etnográficos. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
- MARTÍN-BARBERO, Jesús. Ofício de cartógrafo – Travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
Como vocês puderam ver no e-mail por onde tudo começou, foi da visão certeira do Alexandre que a pesquisa etnográfica acabou tomando verdadeira forma. Quem me convidou para participar da pesquisa foi Renato Mader, professor e coordenador do projeto de Inserção ESPM na Campus Party, num dos famosos cafés nos intervalos das aulas no Mestrado. De cara eu demonstrei um interesse muito específico: QUERO PARTICIPAR DA PESQUISA DE CAMPO, QUERO SER FORÇA ATIVA E ENTEDER COM/SOBRE AS PESSOAS.
Semanas mais tarde, no dia 26/11/08, nos reunimos formalmente pela primeira vez para falarmos sobre o projeto de pesquisa etnográfica, Mader, eu e o professor Wilson Bekesas. Daí, até uma primeira estrutura, foram exatos 6 dias. Neste meio-tempo, conversei muito com Fernando Areas, amigo apresentado por Alexandre e conhecido na Campus Party 2008; reuni-me com a Rose (minha orientadora no Mestrado) para que verificasse meus encaminhamentos acadêmicos; almocei com Alexandre e, principalmente, PESQUISEI muito sobre as várias edições da Campus Party na internet. Aproveitei mesmo o tempo com uma dedicação inquieta e curiosa, que me orientaram a perceber o valor que este encontro em forma de “festa” e “pesquisa” possui.
Estruturei um projeto de pesquisa, que foi enviado a ESPM como uma primeira idéia. Até então, o Departamento de Marketing estudava as formas de investimentos e de inserção da faculdade na própria estrutura do evento, já que foi procurado pela Futura Networks. O Coordenador de Curso de Comunicação Social, Luiz Fernando Garcia, chegou a participar de uma reunião com representantes de outras faculdades e com organizadores do evento. Faltou, no entanto, tempo e dinheiro para tamanho esforço e trabalho (humano e financeiro), pois não adiantaria chegar com qualquer proposta – é um público exigente, jovem em sua maioria, e sem dúvida, constitui um grupo de pessoas que percebem o mundo e se comunicam entre si de modo novo. Neste caso, não adiantava inserir a marca de maneira pouco cautelosa, sem tempo para pensar em como interagir com o evento e as pessoas.
Foi daí que a Coordenação Nacional do Curso de Comunicação Social resolveu investir no que era possível e necessário para pensar o Ensino da Comunicação nos tempos de hoje, não perdendo a oportunidade de inscrever alunos e professores e garantir a participação de um grupo de pessoas vinculadas a ESPM. Formou-se a Equipe pouco antes do Natal e as inscrições de 13 participantes foram concluídas. Agradecemos, especialmente a Luiz Fernando Garcia pela aposta e pelo financiamento de nossas condições de pesquisa e inserção!
Por fim, a Etnografia e esta imersão de alunos e professores da ESPM na Campus Party, partem substancialmente da intenção de perceber como, hoje, as pessoas lidam com as novas formas e os novos jeitos de se comunicar, de conhecer, de aprender e de serem felizes. É isto, afinal, que movimenta todo esse fluxo, essa rede que se forma entre pessoas que se dispõem a trocar e a interagir. Neste Campo a ser pesquisado, o real e o virtual se misturam, sendo que num ambiente coletivo como este, as perspectivas humanas ganham proporções que realmente surpreendem. Como exemplos, lembro de alguns estudos culturais encontrados em minhas leituras do pensador latino-americano Jesús Martín-Barbero, autor-chave que será citado no próximo post. Nos atrevemos a pensar e entender a comunicação, a partir de práticas junto à cultura digital e suas tecnologias, VIVENDO 7 dias em contato direto com pessoas que respiram o espírito dos novos tempos. É olhar e pensar sobre estas questões o que farão os participantes da ESPM na Campus Party 2009.
Segue a Primeira Versão do Projeto de Pesquisa Etnográfica, enviado aos responsáveis pela Imersão da ESPM em 03/12/08.
Conforme todos os que escrevem para este blog, eis a minha apresentação:
Me chamo Alexandre Lourenção (“lourenço grande” mesmo), tenho 24 anos e sou publicitário, formado pela ESPM, local no qual até hoje atuo como assistente de professor, nos projetos de graduação da faculdade.
Sempre me encantou imensamente lidar com tecnologia: trabalhei em uma área que era responsável pelo marketing de servidores grande porte na IBM, ainda, tive um cargo de ‘Especialista em Second Life’ numa agência web (a Media Contacts) me reportando ao analista de pesquisas que ficava em Boston; fui convidado para trabalhar no departamento de marketing da faculdade que tanto gosto, a ESPM, como responsável pelo marketing digital da Instituição. Atualmente trabalho na F.biz com planejamento de projetos interativos e já atendi clientes como Motorola, Vivo e Chiclets (Cadbury Adams).
Há mais de um ano, quando fiquei sabendo sobre a primeira edição da Campus Party, percebi que era um evento no qual eu não poderia faltar. Essa vontade enorme de participar da festa, não era só por conta da questão profissional, mas também para me divertir como todos os outros nerds ali presente iriam também fazê-lo.
Na ocasião, sabendo que deveria parar por alguns dias para participar ativamente da festa, conversei com o meu ex-chefe – o diretor de marketing e novos negócios da ESPM, Emannuel Publio Dias – sobre as oportunidades de troca de aprendizado que a faculdade teria em um local de como aquele. Acabei sendo um espécie de enviado especial da ESPM à Campus Party 2008 o que até rendeu o artigo Impressões, direto da Campus Party no www.espmdigital.com.br.
Crachá | Campus Party 2008
Retomo até um pouco do meu texto original que escrevi ali, no calor do momento:
“…Já que o público campuseiro tem a cultura online pulsando nas veias, a troca de informações, os papos e compartilhamento de conhecimento realmente faz parte do dia-a-dia do pessoal. Ou seja, a festa tem catarcterísticas de funcionamento muito similares ao de uma rede social online, só que tangibilizada em um local físico e offline, a Bienal – e esse modelo responde grande parte do sucesso das festa e do engajamento dos participantes. (…)”
Me encantei tanto pelo ambiente que me envolvi com desconhecidos e juntos produzimos e um vídeo ridículo e divertido no YouTube
Blogueiros Vs Jornalistas na Campus Party 2008, no qual interpretei no melhor estilo dos vídeos caseiros virais um jornalista no aquário… enfim, foi uma experiência extremamente enriquecedora, elucidativa e ativa sobre a produção de conteúdo online.
Há cerca de 4 meses, me procuraram - o Emmanuel, o meu ex-chefe e o professor que presto assistência na faculdade, Luiz Fernando Abul Garcia, diretor Nacional do Curso de Comunicação Social – para conversa informal sobre aquilo que poderíamos fazer na edição 2009 do evento nerd. Após conversarmos bastante e eu pensar muito, enviei um email (que foi muito bem recebido) para eles com a idéia de fazer uma pesquisa etnográfica com o público campuseiro em ambiente como aquele.
Por conta das atribuições de trabalho na agência, fiquei algum tempo sem ter qualquer notícia ou contato sobre o projeto. Mas após 5 semanas, tive a feliz supresa do contato de uma mestranda em comunicação e práticas de consumo da ESPM e minha amiga Thálita, comentando que o meu email havia circulado entre algumas pessoas da faculdade e que ela tinha muito interesse em fazer este projeto junto comigo.
Sem titubear aceitei, e estou aqui, realizando a pesquisa que vislumbrei e escrevendo neste blog…